
Ela não podia mais permitir que invadissem seus domínios. Precisava dar um basta. Cuidava de tudo por ali há centenas de anos, quando aquela terra não era nada além de uma região inóspita. Não foi fácil torná-la fértil, fazê-la frutificar e florescer daquele jeito, enchendo-a de vida. E agora, que estava tudo perfeito e lindo, eles começavam a se aproximar. Quem eles eram para ir chegando assim, modificando tudo o que tinha feito? Aquele era o seu lar. Sua razão de existir. Era tudo o que conhecia. E por ele seria capaz de qualquer coisa. Dos atos mais insanos.
Até matar.
Quando viu aquela frágil garota se aproximando com eles, soube que era chegada a hora. Já havia tentado diversas vezes, mas o grupo parecia forte e imune às suas vibrações e influências. Desta vez seria diferente. A garota podia vê-la. E nenhum humano a tinha visto antes.
Seguiu-a um pouco afastada, porque o resto do grupo a incomodava. Mas não ia permitir aquilo. Não mais. Eles sempre chegavam, tomavam conta de tudo, davam as mãos e faziam sons estranhos, mudando toda a energia, bagunçando tudo o que ela tinha feito.
Era certo que, mais cedo ou mais tarde, iam encontrar o portal. E a entrada, tão bem guardada por tantos séculos, correria perigo.
A garota percebeu sua presença. Seus expressivos olhos verdes se esbugalharam, sua boca se entreabriu e seu corpo se encolheu ligeiramente. A entidade sorriu, mostrando os dentes pontudos e irregulares.
− O que foi Layla?
− A... acho que vi alguma coisa.
A entidade não desviava o olhar. Escondeu-se parcialmente atrás de uma árvore, receosa de que algum dos outros também a visse.
− Eu já disse que você é médium, menina. Precisa estudar e entender o que se passa com você. Você viu alguma coisa, Cila? A Layla está tremendo aqui atrás.
− Não tenha medo, Layla. Eu não vi nada, mas aqui é um local de energias muito positivas. Certamente que há muitos elementais por aqui.
− E...elementais? Fadas, gnomos, duendes?
− Sim. Energias puras da natureza.
A garota estancou temerosa.
− Mas o que eu vi não tinha nada de puro...
− Layla, os elementais não são bons nem maus, são servidores da natureza e auxiliam qualquer um que mexer com ela. Nós é que fazemos deles o uso que quisermos.
− Agora vamos, que daqui a pouco o bosque enche e a gente não consegue mais fazer a mentalização.
Layla olhou em direção à entidade, com receio. Ela a encarava, furiosa.
− Ela não se parece com uma fada ou duende...
− O que exatamente você viu? Não tenha medo.
− Ela é desta altura. − respondeu, colocando a mão na altura do joelho. − Não se parece nem um pouco com uma fada. É horrível! Esverdeada, o rosto afinado, como se tivesse sido esmagado. Os cabelos parecem cordas. Ou plantas.
− Bom... já ouvi dizer que os elementais não têm forma, somos nós que as criamos em nossas mentes. Resta saber porque você criou algo tão diferente.
A entidade fez uma careta e Layla se encolheu.
− O seu olhar é de ódio...
− Ódio?! Esqueça isso. Vamos!
Um pouco afastada, a entidade ainda observava, enquanto eles chegavam ao bambuzal sem nenhuma cerimônia, pisando em sua terra, em sua grama, nos pequeninos insetos que só ela percebia. Sentiu algo indigesto e incômodo se formando em seu estômago, que foi crescendo, subindo, aumentando sua ira. Foi quando ela se enfureceu. E atacou.
O alvo era Layla. Agarrou a garota com força e percebeu que ela se dividia em duas. Corpo e energia. Então a lançou o mais distante que conseguiu e tomou o seu lugar, apossando-se de suas cordas vocais, gritando para que saíssem dali. Do contrário, conheceriam a sua fúria.
Layla se viu jogada para trás, caída no meio do bambuzal. À sua volta, o bosque havia mudado. Uma profusão de cores densas, enevoadas, se embaralhavam no ar. Seus amigos pareciam distantes, como se os visse através da lente de um binóculo. Alguns vultos assustadores se anteviam ao longe. Era tudo tão surreal que quase não podia acreditar que não estava sonhando. Entretanto, não esperaria para entender. Correu de volta ao seu corpo e agarrou a entidade, que agora lhe parecia bem real, nada etérea e ainda mais assustadora. Lançou-a longe, como ela também fizera alguns segundos antes. Apossou-se então do que, por direito, lhe pertencia. E, por sua vez, também gritou. Mas por socorro.
A entidade estava furiosa. E se fosse o contrário? E se ela invadisse o espaço deles? Por que não percebiam que estavam incomodando? Por que não saíam dali? No entanto, eles permaneciam. Em seu espaço, em seu amado círculo. E isso ela não ia mais permitir. Voltou então a atacar e repetir o que fizera anteriormente. E isso se estendeu por uma infinidade de tempo. As duas lutando pelo mesmo espaço, pelo mesmo corpo. Ora, uma gritava enfurecida, ora a outra implorava por auxílio.
Os amigos, que só viam a garota gritando coisas sem nexo, não faziam ideia do que realmente acontecia. Decidiram então sair dali imediatamente. Alguns por medo, outros por respeito. E para trás deixaram o bambuzal e seus segredos. A garota agora seguia calada e todos estavam visivelmente aliviados pelos momentos complicados terem acabado. Uma suave brisa se fez presente, dissipando as energias acumuladas.
Nenhum deles notou que encostada ao bambuzal, muito assustada e confusa, Layla se encolhia sabendo-se deixada para trás. Exausta da luta, sentia-se entorpecida e entre o sonho e a realidade percebia outras entidades como aquela, que agora a guardavam como um tesouro.
Seus expressivos olhos verdes agora brilhavam distantes. E, na curva de saída da trilha, lhe dirigindo um derradeiro olhar, seguia junto ao grupo a entidade, que agora ocupava um corpo que não lhe pertencia. O seu.
