terça-feira, 6 de abril de 2010

Fúria



Ela não podia mais permitir que invadissem seus domínios. Precisava dar um basta. Cuidava de tudo por ali há centenas de anos, quando aquela terra não era nada além de uma região inóspita. Não foi fácil torná-la fértil, fazê-la frutificar e florescer daquele jeito, enchendo-a de vida. E agora, que estava tudo perfeito e lindo, eles começavam a se aproximar. Quem eles eram para ir chegando assim, modificando tudo o que tinha feito? Aquele era o seu lar. Sua razão de existir. Era tudo o que conhecia. E por ele seria capaz de qualquer coisa. Dos atos mais insanos.
Até matar.
Quando viu aquela frágil garota se aproximando com eles, soube que era chegada a hora. Já havia tentado diversas vezes, mas o grupo parecia forte e imune às suas vibrações e influências. Desta vez seria diferente. A garota podia vê-la. E nenhum humano a tinha visto antes.
Seguiu-a um pouco afastada, porque o resto do grupo a incomodava. Mas não ia permitir aquilo. Não mais. Eles sempre chegavam, tomavam conta de tudo, davam as mãos e faziam sons estranhos, mudando toda a energia, bagunçando tudo o que ela tinha feito.
Era certo que, mais cedo ou mais tarde, iam encontrar o portal. E a entrada, tão bem guardada por tantos séculos, correria perigo.


A garota percebeu sua presença. Seus expressivos olhos verdes se esbugalharam, sua boca se entreabriu e seu corpo se encolheu ligeiramente. A entidade sorriu, mostrando os dentes pontudos e irregulares.
− O que foi Layla?
− A... acho que vi alguma coisa.
A entidade não desviava o olhar. Escondeu-se parcialmente atrás de uma árvore, receosa de que algum dos outros também a visse.
− Eu já disse que você é médium, menina. Precisa estudar e entender o que se passa com você. Você viu alguma coisa, Cila? A Layla está tremendo aqui atrás.
− Não tenha medo, Layla. Eu não vi nada, mas aqui é um local de energias muito positivas. Certamente que há muitos elementais por aqui.
− E...elementais? Fadas, gnomos, duendes?
− Sim. Energias puras da natureza.
A garota estancou temerosa.
− Mas o que eu vi não tinha nada de puro...
− Layla, os elementais não são bons nem maus, são servidores da natureza e auxiliam qualquer um que mexer com ela. Nós é que fazemos deles o uso que quisermos.
− Agora vamos, que daqui a pouco o bosque enche e a gente não consegue mais fazer a mentalização.
Layla olhou em direção à entidade, com receio. Ela a encarava, furiosa.
− Ela não se parece com uma fada ou duende...
− O que exatamente você viu? Não tenha medo.
− Ela é desta altura. − respondeu, colocando a mão na altura do joelho. − Não se parece nem um pouco com uma fada. É horrível! Esverdeada, o rosto afinado, como se tivesse sido esmagado. Os cabelos parecem cordas. Ou plantas.
− Bom... já ouvi dizer que os elementais não têm forma, somos nós que as criamos em nossas mentes. Resta saber porque você criou algo tão diferente.
A entidade fez uma careta e Layla se encolheu.
− O seu olhar é de ódio...
− Ódio?! Esqueça isso. Vamos!


Um pouco afastada, a entidade ainda observava, enquanto eles chegavam ao bambuzal sem nenhuma cerimônia, pisando em sua terra, em sua grama, nos pequeninos insetos que só ela percebia. Sentiu algo indigesto e incômodo se formando em seu estômago, que foi crescendo, subindo, aumentando sua ira. Foi quando ela se enfureceu. E atacou.


O alvo era Layla. Agarrou a garota com força e percebeu que ela se dividia em duas. Corpo e energia. Então a lançou o mais distante que conseguiu e tomou o seu lugar, apossando-se de suas cordas vocais, gritando para que saíssem dali. Do contrário, conheceriam a sua fúria.
Layla se viu jogada para trás, caída no meio do bambuzal. À sua volta, o bosque havia mudado. Uma profusão de cores densas, enevoadas, se embaralhavam no ar. Seus amigos pareciam distantes, como se os visse através da lente de um binóculo. Alguns vultos assustadores se anteviam ao longe. Era tudo tão surreal que quase não podia acreditar que não estava sonhando. Entretanto, não esperaria para entender. Correu de volta ao seu corpo e agarrou a entidade, que agora lhe parecia bem real, nada etérea e ainda mais assustadora. Lançou-a longe, como ela também fizera alguns segundos antes. Apossou-se então do que, por direito, lhe pertencia. E, por sua vez, também gritou. Mas por socorro.
A entidade estava furiosa. E se fosse o contrário? E se ela invadisse o espaço deles? Por que não percebiam que estavam incomodando? Por que não saíam dali? No entanto, eles permaneciam. Em seu espaço, em seu amado círculo. E isso ela não ia mais permitir. Voltou então a atacar e repetir o que fizera anteriormente. E isso se estendeu por uma infinidade de tempo. As duas lutando pelo mesmo espaço, pelo mesmo corpo. Ora, uma gritava enfurecida, ora a outra implorava por auxílio.
Os amigos, que só viam a garota gritando coisas sem nexo, não faziam ideia do que realmente acontecia. Decidiram então sair dali imediatamente. Alguns por medo, outros por respeito. E para trás deixaram o bambuzal e seus segredos. A garota agora seguia calada e todos estavam visivelmente aliviados pelos momentos complicados terem acabado. Uma suave brisa se fez presente, dissipando as energias acumuladas.
Nenhum deles notou que encostada ao bambuzal, muito assustada e confusa, Layla se encolhia sabendo-se deixada para trás. Exausta da luta, sentia-se entorpecida e entre o sonho e a realidade percebia outras entidades como aquela, que agora a guardavam como um tesouro.
Seus expressivos olhos verdes agora brilhavam distantes. E, na curva de saída da trilha, lhe dirigindo um derradeiro olhar, seguia junto ao grupo a entidade, que agora ocupava um corpo que não lhe pertencia. O seu.

sábado, 27 de março de 2010

Lua Minguante


Ele acordou desnorteado. O corpo enroscado como um feto buscando a proteção materna. Sentia um gosto amargo na boca e um vazio excruciante no peito. A pele de todo seu corpo ardia. Um ardor pungente de quem havia mergulhado em ácido. O estômago pesava como se houvesse acabado de devorar um gigantesco animal. Tentou abrir os olhos, tarefa impossível diante de tanta claridade. Resolveu esperar. Talvez alguns momentos de reflexão não lhe fizessem mal e conseguisse pôr as ideias em ordem.
A confusão se instalara em sua mente. As lembranças eram desconexas. Mesclavam-se imagens, sons, cheiros, gostos e sensações, desnorteando-lhe os sentidos. Impossível organizar os pensamentos. Quanto mais se empenhava em recordar, mais as coisas se embaralhavam.
Seus músculos se encontravam tensos, enrijecidos, como se há muito não se movesse ou, pelo contrário, houvesse realizado alguma tarefa hercúlea. Com esforço se esticou e tateou seu leito como se buscasse por respostas. Mas não foi a maciez de lençóis o que encontrou.
Suas mãos sentiram o toque áspero e a umidade extremamente reconfortante da terra fria. Permitiu que ela se ajeitasse entre seus dedos, enquanto deslizava as mãos como que a acariciá-la. Esparramou-se. O chão úmido, de certa forma, lhe preenchia a solidão do corpo. Da alma. Deixou-se ficar sem pensar em nada por alguns minutos. Desejou esvaziar a mente por completo, daquelas cores extravagantes, daquelas imagens desconexas.
Levantou-se trêmulo. Suas pernas não o obedeciam e ele se percebeu ferido, lutando contra a força da gravidade que insistia em colocá-lo de joelhos. Não sabia de mais nada. Onde estava, como fora parar ali. Apoiou-se em uma árvore com dificuldade e lentamente abriu os olhos. Olhou o mundo inteiro que se abria à sua frente e não se reconheceu.
Levou as mãos à cabeça ao sentir uma pontada brusca. Havia ali uma ferida aberta, o sangue já estancado e pisado. Foi quando notou que suas mãos estavam sujas, muito sujas, e suas unhas preenchidas por massa escura. Estudou atentamente... algumas partículas de terra, lama e algo indecifrável. Talvez sangue. O desconhecido cheiro de suas mãos era entorpecedor. Teve ânsia de levar a mão à boca e limpar as unhas com os dentes. Mas resistiu. Sob as unhas, só poderia haver sujeira. O que mais?
Buscou insanamente por um resquício de lembrança. E o que tinha era muito pouco. A noite pouco estrelada, a lua inacreditavelmente cheia e imponente. A cabeça girava e o estômago a acompanhava. Uma ânsia de vômito o invadiu e ele desejou poder vomitar. Mas não tinha forças nem para isso. Não sabia de onde vinha aquela sensação de peso no estômago, não se lembrava de ter comido nada. Na verdade, apenas de uma única coisa tinha absoluta certeza: precisava encontrar uma saída daquele lugar.
Estava no interior de uma mata quase virgem, não fosse por algumas plantas e árvores arrancadas pela raiz. Uma parte da mata estava completamente destruída e pela aparência das plantas, ainda verdes, a destruição havia sido recente. Seria preciso uma força descomunal para fazer aquilo. Estremeceu. O que quer que fosse que tivesse passado por ali, talvez ainda estivesse por perto.
Caminhou sem saber ao certo para onde. Os pés queimavam e doíam como se houvesse andado a noite inteira. Seguiu sempre em frente até não mais sentir os pés descalços, ensanguentados pelas feridas que iam se acumulando.
As linhas de seu jovem corpo, dos músculos desnudos pela roupa em frangalhos, estavam tensas, cada vez mais enrijecidas. Ele passou as mãos pelo rosto para livrar-se do suor e aspirou profundamente. Novamente o desejo de lamber as mãos, os braços, seu corpo todo impregnado por aquele odor. Travava uma luta interior. Queria lembrar. Queria esquecer.
A cada passo que dava sua mente se preenchia de mais imagens confusas, que cresciam em profusão. Algumas surgiam à sua frente como por encanto.
Também lhe vinham à memória alguns sons. Distorcidos, inarmônicos. Talvez vozes. Ou gritos.
Um rosto assustado, como a implorar pela vida.
Uma voz de mulher num choro sentido, desesperado.
Um homem enlouquecido, seu ódio estampado no rosto distorcido.
Um grito de criança.
E aquele gosto que ainda trazia na boca... misto de sensações, início ruim, mas saciador, bom. Ele lambeu os beiços, e aspirou fundo o perfume que vinha de suas mãos escurecidas pela substância desconhecida. Começava a se lembrar... daquela luz repentina e fantasmagórica, daquela dor descomunal de suas carnes sendo rompidas. E das sombras. Muitas sombras e vazios.
Sua mente se aclarava. A cada passo uma lembrança. A cada passo o horror se apoderando de todo o seu ser. Horror de seu olhar refletido em tantos olhares, horror dos atos que agora tinha absoluta certeza, cometera. E o desprezo. Pelos sentimentos opostos que nutria. Culpados, vergonhosos. Mas de intenso prazer e satisfação.
Não!
Queria esquecer. Precisava esquecer! Por que se esforçara para lembrar? Caminhava agora com passos mais firmes, sem saber ao certo para onde. O peito nu não sentia frio, não sentia nada além de dor, mas uma dor muito mais profunda que as causadas pelas suas feridas, pelas valas arranhadas nas pernas, no peito, no rosto, por onde o sangue em algum momento daquela noite maldita havia escorrido.
Estava só. Infinitamente só. Não havia com quem pudesse compartilhar aquela dor. Embrenhava-se cada vez mais no vazio que agora preenchia seu peito. Sua alma. Poderia suportar qualquer coisa, o ódio, o desprezo, a perseguição, mas não poderia suportar sua consciência. Acusando, apontando, e relembrando-o a cada instante daquela parte de seu ser que desejaria esquecer. Sua consciência o culpava, como um gigante inquisidor.
Mas era só por uma noite. Nos outros 364 dias era uma outra pessoa. Será que não haveria saída daquelas sombras? Estaria marcado para sempre?
Começou a perceber ao longe as luzes de uma cidade. Sua cidade. Afastou um galho. Desvencilhou-se de outro. Seus pés feriram-se um pouco mais na ânsia de sair logo dali. Mas não se importou. Estava livre. Deixava para trás aquelas horríveis lembranças. Precisava continuar, precisava sobreviver e aceitar o seu destino. Aquela não era a sua vida, era apenas uma parte dela. Um apêndice. Que tinha de suportar. Até a próxima lua cheia. Quando se transformaria em lobisomem novamente.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

O Carnaval ainda não acabou

O calendário diz que o Carnaval já acabou, mas sabemos que, na vida real, só termina no próximo domingo. Outro dia fui ver um desses coretos do Rio, onde havia um grupo de lindas garotas, sorriso perfeito, corpos sarados, cabelos e unhas impecáveis. Eram super organizadas, minúsculas fantasias iguais, coreografia muito bem ensaiada e para lá de sensual. E ainda tinham samba no pé! O povo parou para ver, porque era literalmente um “espetáculo”, os homens babavam, as mulheres olhavam com ódio, talvez inveja...
Isso me fez pensar no quanto nós, mulheres, somos por natureza guerreiras. Nos dividimos diariamente em três jornadas e buscamos a perfeição em cada uma delas.
Na jornada profissional, incansáveis em provar a cada dia que somos mais que um rostinho bonito, nos afogamos em meio a funcionários e chefes estressados, projetos e planejamentos, cursos e especializações, esperançosas de ganhar algum dia, ao final do mês, o mesmo salário de um homem que ocupe o mesmo cargo.
Na jornada do lar, somos super-mulheres, conciliando marido, filhos, casa, empregada, para que tudo saia perfeito, sempre. Buscamos multiplicar o tempo para ir ao colégio das crianças, à reunião de pais, ao supermercado, ao banco e ao cabeleireiro, porque afinal, mulher descabelada e de unhas roídas, nenhum marido merece.
Na de desenvolvimento pessoal, lemos livros de auto-ajuda, praticamos meditação, Yoga, Pilates, Reiki, Cromoterapia, Aromaterapia e mais uma série de outras terapias alternativas que nos levem ao equilíbrio emocional e espiritual.
Pode ser que algumas de nós ainda se lembre, vez ou outra, quem sabe até agradecidas, de nossas antepassadas, que tendo sido ainda mais guerreiras, lutaram contra a opressão do espartilho, a tirania do casamento arranjado, o veto à educação e à leitura, e pelo direito de sustentar uma opinião...
O futuro finalmente chegou, e com ele a pílula, a camisinha, a Internet... E a mulher se vê finalmente dona do seu próprio nariz, conquistando seu espaço ao lado dos homens, agora companheiros de direitos e deveres.
E nada mais justo que buscar um lugar ao sol. Já encaminhada, ou até vencedora, em seus três papéis principais, tudo que ansiamos é por uns dias de descanso, tirar férias de tudo isso e, ao menos por poucos dias termos um tempo só para nós.
Então chega o Carnaval, época de folia, alegrias e cores. E nós, sabedoras de nossa inteligência e de nossa beleza também (por que não?), de nossa independência do sexo oposto, nos rendemos aos apelos do Carnaval.
E, para isso, para que tudo saia perfeito, treinamos exaustivamente o samba no pé, o rebolado mais gingado, o sorriso mais encantador. E passamos um mês inteiro comendo alface, após dois meses de exercícios puxados na academia, para finalmente alcançarmos o almejado posto de rainhas e termos todos os olhares voltados para nós. E eu me pergunto se é sem perceber que somos coroadas rainhas. Rainhas de Dionísio, bacantes pós-modernas.
Talvez sem nos darmos conta, estamos voltando no tempo e nos moldando mais uma vez ao papel há muito esperado por nós por aqueles dominadores do passado (passado?). Já que, enquanto nos consideramos as “caçadoras”, as dominadoras, continuamos sendo, como nossas antepassadas, um mero objeto do desejo e do prazer masculino, mesmo que indiretamente, já que são os gostos deles que ditam as regras.
Mas, quem vai entender as mulheres?

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Eu me lembro de tudo

Achei esse livro guardado, que venho escrevendo aos poucos, sem pretensão alguma, já nem sei mais há quantos anos. Começou com uma personagem que um dia surgiu tão forte e dona de si, que invadiu meu imaginário. E de vez em quando ela retorna. Daí retomo a escrita e nem sei se um dia darei um ponto final. Achei interessante dividi-la aqui, ao menos nessa parte, em que ela fala do processo da escrita.
É a história de uma escritora que está no auge, com seus livros traduzidos e lidos em todo o mundo e que, por isso mesmo, não encontra a paz. É perseguida, adulada, caluniada. O livro, que nunca terminei, é o diário dela, que começa a ser escrito quando já não agüenta mais tudo isso e toma uma drástica decisão. A de retirar-se. Só não vou explicar como, por hora...




- Eu me lembro de tudo!
- Escreve?
- Não sei escrever. Desenho... Queria saber escrever... Pra poder esquecer.
Jean-Luc Godard (Je vous salue, Marie)



Decidi escrever esse diário no momento exato em que também decidi me despedir do mundo. Mas não podia me retirar sem deixar para você esse pedacinho de mim, um pouco do que sou e fui. Aqui escreverei o que me for acontecendo, o que me vier à mente. Aqui somente entrará o que me vier diretamente do coração. Faça dele o que quiser; queime-o se te fizer sentir melhor, depois de tudo que te fiz passar. Ou guarde-o, se não for esse o momento. Só te peço que não o leia antes da hora, antes de sentir um apelo, um ensejo muito grande, um desprendimento tamanho que o torne inatingível ao que daqui vier. Porque nestas linhas você encontrará de tudo, coisas boas e más. Algumas afirmações são verdadeiras, outras nem tanto. Mas tenha a certeza de que no momento em que o escrevi, era a mais pura verdade. Nem toda verdade é uma máxima. Nem toda verdade é eterna.
Já vivi muitas vidas e nem todas foram verdadeiras. O limite entre a ficção e a realidade não está apenas nos livros, mas também na vida. E comigo não foi diferente. Você ainda faz parte da minha história, um dia talvez entenda a minha decisão, talvez não. Sei que a decisão que tomei foi difícil, dura demais para você. Mas o que você nunca soube é o que eu tenho passado em todos esses anos, sendo adorada e odiada ao mesmo tempo. Sem saber em quem confiar, a quem amar. Sei que você não teve culpa de nada, mas também não posso me culpar pelo que aconteceu.
Não sou uma pessoa de uma idéia só, de uma única e inabalável opinião. E acho que isso incomoda muita gente. Gente que faz de tudo para estar por perto, e que nem sempre são sinceros. Eles pensam conhecer-me, pensam saber quem sou, ousam dizer coisas, as mais absurdas. Se me vêem feliz, logo querem saber o porquê. E se a felicidade é grande demais, se chocam, se ofendem e pedem maior comedimento. Ao verem-me introspectiva indagam também o porquê da tristeza e, se afirmo não estar triste, não se convencem, considerando-se até enganados ou traídos.
Personalidade ou estado de espírito? A quem quero enganar? Por que tentar agradá-los? Não compreendem. Não sabem o que é ter a arte nas veias. Não conhecem o valor da introspecção e da interação. Cada qual a sua hora.
Não. Não me conhecem. Apenas julgam conhecer. E talvez a culpa, em parte, seja minha. Essa minha paixão pela escrita. Essa minha loucura. E mesmo agora, não me vejo totalmente livre.
Escrever é desnudar-se
É virar-se do avesso
É morrer aos poucos
É revelar-se sem ser compreendida
É amar e não ser amada
É viver intensamente cada momento.
Escrever é uma necessidade, um vício. Vício esse eternamente alimentado pela insanidade de viver. Insanidade porque o mundo é insano. Estar no mundo, fazer parte dele é um exercício constante, onde a grande maioria já foi reprovada e não sabe.
Escrever é como uma confissão, é livrar-se da culpa, do pecado.
Meu estilo? Deixo a análise para os críticos. Escrevo.
Se a escrita não houvesse não seria possível existir, pois, como existir por completo se depois de todas as insanidades inaladas no dia não houvesse onde deixá-las? É preciso escrever para livrar-se delas. É preciso escrever para deixar de pensar. Livrar-se um pouco do excesso de pensamentos, se libertar.
Saber-se escritor é estar certo de uma coisa, ninguém jamais o conhecerá plenamente. Julgam conhecer- te por considerarem nossas obras uma extensão de nossas vidas. O que não é de todo errado, mas o que lhes falta é a exata compreensão do alcance de uma idéia, o limite entre a ficção e a realidade.
Mas, afinal de contas, o que é real?

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

La passion par la parole*

* /A Paixão pela palavra
Largada na cama, cabelos desgrenhados, unhas roídas e por fazer, papéis amassados jogados ao chão, um caderno rabiscado ao lado. Palavras soltas, algumas sem nexo, outras nem tanto, vestígios da longa espera pelo telefonema que se transformou em carta.Uma escritora, cuja essência da vida é a paixão pela Palavra, objeto de seu maior prazer. Palavra que cria vida, anda sozinha, inventa histórias e povoa toda a mente. Impossível não escrever, não dividir. A Palavra lhe move todo um mundo, toda uma existência. La parole, Ah! La parole... Para ela, fazia muito mais sentido em francês, onde a palavra é força. É vida.
Era um dia chuvoso, nublado e triste. Incomum para o Rio de Janeiro, mas que se encaixava perfeitamente ao seu estado de espírito. Havia recebido uma carta-resposta de uma editora, pela qual ansiava publicar, e relutava em abri-la. Enfim, tomou a decisão. Rasgou o papel meio temerosa, por já saber o que a esperava, pois se fosse boa coisa não teria vindo por carta.“Embora sua obra apresente visíveis qualificações literárias, não temos interesse em publicá-la no momento. Atenciosamente...”. Há! Atenciosamente! Pensou, amassando o papel para desamassá-lo em seguida e guardá-lo na agenda. Poderia ter serventia no futuro, para se lembrar dos momentos difíceis. Como se ela não soubesse de que se tratava de mais um clone das outras centenas de cartas que enviavam mensalmente para outros tantos escritores frustrados. Se ao menos tivessem tido o trabalho de ler e dado um parecer verdadeiro... Afinal, uma crítica construtiva é sempre bem vinda. A aprovação é importante, mas não imprescindível. Pois ela sabe quem é.
O duro era lidar com a falta de consideração das pessoas, atrapalhando o seu processo criativo. Como a mãe que a interrompia religiosamente dez vezes ao dia.
- Alô! Tudo bem?
- Tudo mãe, e você? - já tinha se arrependido de perguntar.
- Eu tenho andado com muita dor na coluna... O ciático está me matando... E as varizes então? O médico me mandou colocar as pernas para cima...
Finalmente consegue desligar o telefone uma hora e meia depois. Mas o pior é agüentar as constantes perguntas:
- Você não trabalha?!Não trabalha... Como se fosse diversão ter a mente vinte e cinco horas por dia voltada para o texto ainda não escrito, ainda nem esboçado. Como se fosse moleza passar a madrugada escrevendo no computador, os dedos doídos, as costas mais ainda, os olhos acesos como faróis. E depois a insônia, o cérebro a mil que não a deixa dormir. A falta de idéias... As trezentas leituras por fazer. A angústia de constatar que nem em um milhão de encarnações conseguiria pôr toda a leitura em dia; os clássicos, os contemporâneos. E as re-leituras, então?
Procurou pensar que um dia ainda daria gargalhadas de tudo, quando fosse então reconhecida por senhoras idosas nas ruas.
- Você não é aquela escritora? Puxa! Minha filha te adora! Pode me dar um autógrafo? Não é para mim, é para ela sabe... Escreve aí: para Efigênia, com carinho.
Não estava mesmo inspirada, se é que isso existia, essa tal de inspiração. Achava até que não conseguiria mais escrever. Afinal, de que valia tanto esforço? Tantas horas, dias, meses, dedicados a um texto, se ninguém o leria? Não. Nunca mais escreveria. Talvez não fosse boa mesmo, não servisse para escritora. Sonho tolo. A palavra não fazia mais sentido e pouco significava agora. Melhor se dedicar a outra coisa, encontrar algo que a preenchesse. Mas o quê? Nada fazia mais sentido em sua vida do que escrever.Melhor então esfriar a cabeça. Decidiu dar uma volta pelo Pepê. Gostava de pisar descalça na areia da praia e não importava se estava nublado, um banho de chuva até que lhe faria bem.
Mas era grande conhecedora de si mesma para saber que ia passar por alguns dias depressivos, de comiseração pessoal. Tirou as sandálias e iniciou a caminhada.A chuva parou e o sol ensaiou uma tímida aparição. Havia um homem também descalço, de chinelos na mão, vindo em sua direção. Temeu que fosse um tarado. Corria um boato sobre um tarado se exibindo por aquelas bandas.
Se deu conta de que estava ficando paranóica, fantasiando demais. Era parte de sua personalidade, fantasiar. Esticou a canga que trazia na bolsa de crochê e sentou-se olhando despretensiosa para o mar. O homem parou ao seu lado.
- Oi.
A verdade era que o pseudo-tarado era muito bonito e ela não pode desviar o olhar.
- Você vem sempre aqui? Quero dizer, em dias chuvosos?
Não tinha vontade de conversar. Achou que era só ignorar e ele iria embora. Mas ela não podia lutar contra os seus instintos. Deu mais uma olhada nele e respondeu:
- Só quando preciso recarregar as baterias.
- Eu também. Posso? - perguntou apontando para a ponta da canga desocupada.
Que folgado! Claro que não!, pensou. Abriu a boca para dizer um desaforo, mas reparou que os olhos dele eram extremamente verdes.
- Pode. - tapou a boca com a mão. O que estaria acontecendo? Alguma força sobrenatural a impelia a falar?
Ele sorriu - sorriso perfeito - e sentou. Permaneceram ambos, olhares perdidos no horizonte.
- Bonito não é? - ele ousou quebrar o silêncio.
- O quê?
- O céu assim, essas nuvens encobrindo o sol.
- Ah, é. - ela estava distraída, meio tonta até, devia ser o perfume dele, cheiro de homem.
Iniciaram uma conversa animada e descobriram que gostavam das mesmas coisas: pôr do sol no Pepê, comida italiana, incensos indianos, lua cheia, filmes franceses. Marcaram um encontro para aquela mesma noite.
- Às nove então? - ele a olhou profundamente nos olhos e se despediu.
- Às nove.
Ela foi direto para casa e viu que tinha ainda três horas para se arrumar, era tempo de sobra. Jogou-se na cama e escreveu freneticamente cerca de cinco páginas. Esboço para um novo romance. Uma história sobre uma paixão avassaladora, em algum país exótico. Iniciaria as pesquisas necessárias no dia seguinte. Aquela noite era sua.
Toda a paixão é movida por outra grande paixão. Sendo assim, ela voltou a amar, a se inspirar. Afinal, a vida ainda valia a pena. A pena. O lápis. A palavra. La parole. Ah! La parole...