sábado, 20 de fevereiro de 2010

O Carnaval ainda não acabou

O calendário diz que o Carnaval já acabou, mas sabemos que, na vida real, só termina no próximo domingo. Outro dia fui ver um desses coretos do Rio, onde havia um grupo de lindas garotas, sorriso perfeito, corpos sarados, cabelos e unhas impecáveis. Eram super organizadas, minúsculas fantasias iguais, coreografia muito bem ensaiada e para lá de sensual. E ainda tinham samba no pé! O povo parou para ver, porque era literalmente um “espetáculo”, os homens babavam, as mulheres olhavam com ódio, talvez inveja...
Isso me fez pensar no quanto nós, mulheres, somos por natureza guerreiras. Nos dividimos diariamente em três jornadas e buscamos a perfeição em cada uma delas.
Na jornada profissional, incansáveis em provar a cada dia que somos mais que um rostinho bonito, nos afogamos em meio a funcionários e chefes estressados, projetos e planejamentos, cursos e especializações, esperançosas de ganhar algum dia, ao final do mês, o mesmo salário de um homem que ocupe o mesmo cargo.
Na jornada do lar, somos super-mulheres, conciliando marido, filhos, casa, empregada, para que tudo saia perfeito, sempre. Buscamos multiplicar o tempo para ir ao colégio das crianças, à reunião de pais, ao supermercado, ao banco e ao cabeleireiro, porque afinal, mulher descabelada e de unhas roídas, nenhum marido merece.
Na de desenvolvimento pessoal, lemos livros de auto-ajuda, praticamos meditação, Yoga, Pilates, Reiki, Cromoterapia, Aromaterapia e mais uma série de outras terapias alternativas que nos levem ao equilíbrio emocional e espiritual.
Pode ser que algumas de nós ainda se lembre, vez ou outra, quem sabe até agradecidas, de nossas antepassadas, que tendo sido ainda mais guerreiras, lutaram contra a opressão do espartilho, a tirania do casamento arranjado, o veto à educação e à leitura, e pelo direito de sustentar uma opinião...
O futuro finalmente chegou, e com ele a pílula, a camisinha, a Internet... E a mulher se vê finalmente dona do seu próprio nariz, conquistando seu espaço ao lado dos homens, agora companheiros de direitos e deveres.
E nada mais justo que buscar um lugar ao sol. Já encaminhada, ou até vencedora, em seus três papéis principais, tudo que ansiamos é por uns dias de descanso, tirar férias de tudo isso e, ao menos por poucos dias termos um tempo só para nós.
Então chega o Carnaval, época de folia, alegrias e cores. E nós, sabedoras de nossa inteligência e de nossa beleza também (por que não?), de nossa independência do sexo oposto, nos rendemos aos apelos do Carnaval.
E, para isso, para que tudo saia perfeito, treinamos exaustivamente o samba no pé, o rebolado mais gingado, o sorriso mais encantador. E passamos um mês inteiro comendo alface, após dois meses de exercícios puxados na academia, para finalmente alcançarmos o almejado posto de rainhas e termos todos os olhares voltados para nós. E eu me pergunto se é sem perceber que somos coroadas rainhas. Rainhas de Dionísio, bacantes pós-modernas.
Talvez sem nos darmos conta, estamos voltando no tempo e nos moldando mais uma vez ao papel há muito esperado por nós por aqueles dominadores do passado (passado?). Já que, enquanto nos consideramos as “caçadoras”, as dominadoras, continuamos sendo, como nossas antepassadas, um mero objeto do desejo e do prazer masculino, mesmo que indiretamente, já que são os gostos deles que ditam as regras.
Mas, quem vai entender as mulheres?

17 comentários:

Thais Linhares disse...

Falou bem! Eu cá tô me tocando que pra ser feliz basta ser eu mesma, e pra isto eu não precise rebolar pra nenhum marmanjo. Aliás, os melhores homens não são aqueles que olham pras nossas derrières, e sim nossa alma. Ih...qui binitu!

Sandra disse...

A questão é que a gente continua "rebolando" entre todas essas jornadas. Queimamos sutiãs num passado não muito distante, mas ainda temos jornadas triplas, quadruplas, quintuplas! Nos "liberamos", mas continuamos sendo as "rainhas do lar". E haja fôlego!!! Como bem disse a Thais, os melhores homens são aqueles que nos olham por dentro!!! bjks

Ana Lúcia Prôa disse...

Flávia,

Obrigada por ter voltado a nos brindar com seus textos "para adultos", digamos. Que sejam constantes a partir de agora!

Gostei muitooo! Retrata o que nós somos: mulheres multi, mas ainda - de vez em quando (ou de vez em sempre?) - com resquícios do passado. Que possamos ser a cada dia mais plenas de nós mesmas!

Beijos e siga e frente com seu blog!!!!

Chris A. Angelotti disse...

Adorei Flávia!
Somos realmente mulheres multifacetadas, guerreiras. Frágeis e aos mesmo tempo, quando preciso fortes.
E ainda tem um pequenos detalhe, cobramos perfeição em tudo,em todos os nossos "papeis".
Mas acho que as moças que você viu sambando não são as que vivem as várias jornadas da maioria de nós. Aquelas que se alimentam dos olhares alheios, s e contentam com pouco, logo devem ter muito tempo livre. beijos

ana paula disse...

É verdade, o mais importante é sermos livres dentro de nós mesmas e estar sempre a vontade. isso sim é irresistível, estar bem consigo mesma!
um beijão e espero mias textos viu?!

Anônimo disse...

Flávia,
É com um grande prazer que venho te visistar, uma visita virtual que acaba sendo tão afetiva quanto a real. Lendo outras postagens suas, achei interessante esse seu momento de falar sobre coisas que tem vivido, como num diário. E pedir comentários. É um modo de compartilhar a vida, inclusive a sua vida de escritora.
Há pouco tempo fiz uma crônica sobre aa mulher que vive tantas coisas nesta vida, que se vira e revira por tudo,por todos, nem sempre para si e, agora, você me chama a atenção que mesmo assim ela é bela na folia do carnaval e tira o melhor proveito da festa.
Salve a nós, as mulheres!
Um beijo
Tereza

AMAUTA DE COTAHUASI disse...

Thais querida, parabéns pelo texto. Claro que como muitas de nós me encontrei no mesmo, nas jornadas múltiplas! Homem que olha pra nossa alma deve ser um homem almado, amado, não é mesmo? E eu que nem tenho samba no pé e nem sei rodar a baiana, pois sou peruana? É imprevisível por onde nos leva a leitura de um texto. Continue nutrindo a gente! Abraço grande!!!

Danilo Macedo Marques disse...

Ótimooo!!!

Não mudem... é isso o que mais amo nas mulheres, são fortes, guerreiras, lindas, poderosas, batalham, guerreiam, pelejam, tomam a surra da vida, mas continuam preocupadas com a unha que quebrou, o cabelo que está em desalinho, o batom que apagou, etc etrc (só não gosto da parte em que ficam se descabelando por causa de celulites... celulite é uma coisa muito sexy e eu sou maluco por elas,... aliás, só mulher se preocupa com celulite; se tem celulite é pporque é (me desculpe os termos) Boa, gostosa, linda! ) Mas enfim... continuem sendo assim... o mundo é das mulheres, sempre... e eu sou fã de vocês.

Fábio Sombra disse...

Ahaaa! Aqui vai mais um comentário masculino! Mas é pra dizer que ainda existe muito homem no mundo que não tá nem aí pra mulher linda e burra, pra mulher popozuda mas desprovida dos atrativos do intelecto e da sensibilidade. Felizmente o império das "rainhas de bateria" só dura, quando muito, até a quarta feira de cinzas...Muito bacana o seu texto, Flávia.

Deborah Quintal disse...

"Dona Mamãe ralha e beija,
erra, acerta, arruma a mesa,
cozinha, escreve, trabalha fora,
ri, esquece, lembra e chora,
traz remédio e sobremesa..."

Sylvia Orthof. Se as coisas fossem mães. Nova Fronteira. 1984.

R. Marcchi disse...

Oi Flavinha,

Realmente tenho que concordar com os vários poetas que dizem que DEUS fez o homem primeiro pois precisava de um rascunho para sua obra prima, a mulher.

Vocês são bonitas, inteligentes, fortes (quem cantou "sexo frágil" nunca teve uma ao seu lado), suportam dores inimagináveis e muitas vezes sentidas só no coração. São mães (muitas vezes até do próprio companheiro), mulheres, sexies, e tudo o mais que pode consagrá-las, mas... Às vezes me pergunto sobre a atitude de alguns seres humanos (normalmente os que possuem algum destaque na mídia). Retrocedem tão abruptamente ao tempo em que garrafa de guaraná era lacrado com rolha que põe por terra várias das conquistas que demoraram anos para existirem.
Tornam-se objetos (e só isso... Mais nada!). Meros feitiches em forma de carne. Pena... O bom dessa história é que, ainda bem, existem mulheres de beleza, garra, fibra e inteligência que não se vendem para agradar meia dúzia de marmanjos babões e retrógrados (Sou casado com uma assim!!).

Beijos,

R. Marcchi

Leila Míccolis disse...

Flavia querida, seu texto é ótimo para reflexão, principalmente quando aparece a pergunta final: "Mas, quem entende as mulheres?" - esta é pergunta "deles"... Se nós mesmas não soubermos responder a esta questão, tudo vai ficar igual ao que está... Muito bom você nos lembrar disso. Beijos, Leila

Anônimo disse...

Bom seria o dia em que o homem e mulher se olhassem como o espelho um do outro,percebendo diferenças,aceitando igualdades e aproveitando tudo isso o máximo intensamente.bj

Gabriela Souza disse...

Flavia, adorei seu texto! Qualquer mulher da atualidade se identifica com ele. Bom vê-la escrevendo de novo!
Bjs.
Gabriela

Anielizabeth disse...

Adorei amiga!
Realmente ainda temos muito o que pensar sobre o papel da mulher! Até onde vai mesmo nossa tão comemorada libertação??? O carnaval é a prova disso. Será que apenas não aumentamos o tamanho da nossa cordinha? Quem realmente se beneficiou dela, se os homens lucram (e muito) com esta nova multimulher!
E concordo com a Thaís: os melhores homens são os que enxergam a nossa alma!
Não deixe de postar neste blog, querida!
Adoro o que vc escreve!
Beijos
Anielizabeth

Elaine Imenes disse...

Olá! Achei seu texto bastante interessante. Sempre fico a pensar se nós mulheres realmente somos felizes com este novo papel que assumimos na sociedade. Fomos de um extremo a outro num tempo muito curto. Talvez o equilíbrio seja a solução, mas é difícil encontrá-lo.
Beijos e até seu próximo texto.
Elaine

Anônimo disse...

Muto legal e sinistro quase roí as unhas.bj moniquinha